Publicado por: karinaxavier | maio 29, 2010

Avatar, Alice no País das Maravilhas e o personagem Benê de Viver a Vida.

Escrito por Madson José A. Rafael (Doutorando em Sociologia pela UFPE).

Hoje participei de um debate sobre telenovela e a construção de desigualdades. Isso me fez refletir sobre esta questão, que já foi tida por estratificação social, de classe, e num segundo momento foi definida como hierarquia. Nesse conjunto de conceitos me remeteu a dois filmes recentes de Hollywood: o primeiro Avatar e o segundo Alice no País das Maravilhas e fazer um cruzamento com a recém terminada novela do elogiado e criticado Manoel Carlos que tentou abordar questões de (des)igualdades – atualmente a teoria sociológica aponta para esse conceito. Podemos mencionar o caso de uma modelo (personagem principal) ícone de sucesso na sociedade atual que fica tetraplégica e seus desdobramentos em vias de superação, mas não é nessa personagem que pretendo me deter. Na cena underground da novela estava coadjuvando uma personagem de nome simples, comum, Benê que morava numa comunidade – termo politicamente correto para quem vive no morro – à margem da sociedade, na “favela”.

Salvaguardando todas as críticas ao cinema hollywoodiano vamos primeiro comparar, ainda que brevemente, os dois filmes mencionados acima. Avatar trás em sua construção o espírito belicista de dominar povos que eles considerem inferiores, afinal isso é uma marca do cinema americano. Entretanto, temos algumas inovações quando o avatar principal que deve espionar o povo a ser conquistado rompe com o seu mundo tido como civilizado e muda de lado, deixa de servir ao tio Sam e passa para o lado do ‘inimigo’. Esse tema pode ser tratado mais detalhadamente em outra oportunidade, também não quero ficar narrando o filme para que quem não o assistiu ainda possa fazê-lo sem que eu estrague as suas surpresas. O que importa destacar é que há uma questão de (des)igualdade/diferença que se impõe e que se resolve em favor do estranho.

Em Alice no País das Maravilhas, filme tão aguardado e que está em cartaz há um mês mais ou menos, trás uma Alice que cresceu não mais pela força das poções mágicas, mas pela própria força do tempo. Afinal o tempo passou e a menininha Alice já é uma moça que precisa fazer escolhas, para o seu contexto, na sociedade de corte londrina, ela pertencente à aristocracia precisa decidir se vai casar ou não. Toda a trama se passa e, isso que vou dizer agora, não tenho como evitar falar um pouco do final do filme, ela decide construir sua vida sem casar. Trata-se, nesta versão do cinema, de uma Alice em busca de sua emancipação, ao final podemos supor que ela se emancipa, transforma-se numa mulher de negócios, um avanço para conquistas feministas que só viriam mais tarde.

Exposto esse dois pontos, voltemos a nossa realidade, brasileira, menos colorida, mas sempre empolgante percebida através das novelas, também salvaguardando as críticas de que novelas não se prestam à análise da sociedade. Ao personagem chamado Benê – talvez por conta de Benedito, coincidência ou não o único santo negro proclamado pela Igreja Católica – e o personagem negro (ator, não sei o seu nome, acho que foi sua primeira novela) faz parte de um cenário que pela primeira vez foi inserido no luxuoso cenário do bairro do Leblon no Rio de Janeiro. Benê é pobre, favelado como já disse e para piorar é envolvido com os bandidos do morro. Mas também ama, tem uma mulher que lhe ama (sandrinha) e tem um filho com ela, ambos lutam para viver esse amor. Não assisti muito essa novela, confesso que esse autor não me atrai muito, mas os últimos capítulos fiz questão de assistir para ver o final de Benê que, esperado ou não, foi a morte. Não houve maneira dele se salvar, enfim o crime não compensa mesmo das pessoas que não tiveram muitas escolhas na vida. Nem na novela “Maneco” conseguiu redimir o bandido Benê(acho que já houve piores) quem não se lembra do corrupto Marco Aurélio de Vale Tudo ? Que termina indo embora do Brasil dando uma banana (em gesto), esse sim era bandido. Mas afastando-me dos julgamentos – coisa que Maneco não fez – resta chamar à atenção para o que parece prevalecer, a condição de desigualdade. Não havendo chance de ter direito a igualdade, muito menos à diferença, Avatar e Alice se encaixam nessa nova condição que a sociedade se encontra, mas para Benê de Viver a Vida, restou morrer. Pois ele era diferente e não se encaixava naquele cenário global e fantasiado por Manoel Carlos. Isso é que é realidade, só não sei se é arte.


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